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Bengala verde dá ‘visibilidade’ a pessoas com baixa visão

Com visão subnormal, Jhonatan Pereira e Claudemir de Assis estão com uma bengala verde na mão. Eles sorriem.

A rio-pretense Raquel Martin, 31 anos, não enxerga nada pelo seu olho direito e tem menos de 10% da visão de seu olho esquerdo, o que exige o uso de bengala para se locomover pela cidade. Ela consegue usar o celular graças ao recurso de áudio. “Consigo também ver uma imagem quando ela é bastante ampliada na tela.”

No entanto, o uso da bengala não é suficiente para que ela seja respeitada por outras pessoas sem deficiência visual quando pega um ônibus circular, por exemplo. “Muita gente me questiona se realmente sou cega porque me vê entrando com bengala no ônibus e, depois, me vê usando o celular. Elas não entendem que eu tenho uma cegueira parcial. Já passei muitos constrangimentos por isso”, conta Raquel.

Na última situação constrangedora vivida por Raquel no transporte coletivo de Rio Preto, o motorista do ônibus não aceitou avisá-la quando chegasse ao ponto solicitado simplesmente por achar que ela não era cega. “O motorista disse bem alto no ônibus: ‘se ela quiser parar, que puxe a cordinha’. Se eu estou pedindo para ele me avisar quando chegar em determinado ponto, é porque eu não tenho condições para identificar apenas com a minha visão. Para mim, o respeito à minha condição é importante, pois eu uso transporte coletivo todos os dias.”

Os constrangimentos sofridos por Raquel são comuns na vida de todo brasileiro que tem visão subnormal, condição em que o campo periférico é extremamente reduzido, a ponto de precisar de uma bengala para se locomover, mas, mesmo assim, há a capacidade de ler utilizando o campo central.

Para conscientizar a população e dar visibilidade a essa parcela excluída da sociedade, Rio Preto passa a fazer parte, a partir da próxima sexta-feira, 24, do Movimento Bengala Verde. A iniciativa consiste no uso de uma bengala na cor verde entre as pessoas que contam com cegueira parcial, permitindo a sua identificação no convívio social. Já aquelas pessoas que têm cegueira total utilizam uma bengala na cor branca.

“A bengala verde vai ajudar muito no meu dia a dia, pois as pessoas saberão que se trata de alguém com visão subnormal e não com cegueira total. Eu uso transporte coletivo todos os dias e já passei por inúmeras situações chatas. Teve gente que até me chamou de golpista, dizendo que eu estava fingindo ser cego para tirar vantagem”, conta o jovem Jhonatan Henrique Pereira, 23 anos, que, assim como Raquel, frequenta o Instituto dos Cegos, instituição que está à frente do movimento Bengala Verde em Rio Preto.

“Rio Preto é a primeira cidade do interior paulista a aderir ao Bengala Verde. Por meio da bengala na cor verde, a comunidade poderá distinguir com mais facilidade quem é cego e quem tem visão subnormal. Uma pessoa com visão subnormal tem sua acessibilidade reduzida e também precisa ser respeitada no convívio social”, comenta Rodrigo Rocha, 37 anos, que tem cegueira total e milita na causa dos deficientes visuais na cidade.

Visibilidade 

O Movimento Bengala Verde surgiu na Argentina em 1998. No Brasil, foi iniciado em 2016, em São Paulo, por meio da associação Retina Brasil, tendo como um de seus líderes o paulistano Rodrigo Bueno, que estará em Rio Preto nesta sexta-feira, 24, quando será feito, no Instituto dos Cegos, a cerimônia de lançamento do movimento na cidade.

“Na cerimônia de lançamento, vamos fazer a entrega das primeiras bengalas verdes às pessoas da cidade com visão subnormal, além de apresentar o movimento para autoridades, representantes de entidades e profissionais de diferentes áreas”, explica Rocha.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, há no País 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, das quais 6 milhões contam com baixa visão e cerca de 580 mil são cegas. Ou seja, o público com visão subnormal representa uma parcela expressiva da sociedade, que sofre inúmeros tipos de constrangimento.

Serviço

  • Lançamento do Movimento Bengala Verde em Rio Preto. Sexta-feira, 24 de agosto, das 9h às 11h. Instituto dos Cegos (Rua Dr. Cleo Oliveiro Roma, 200). Informações: (17) 3355-5000

Instituto é referência nacional

Com mais de 70 anos de história, o Instituto dos Cegos de Rio Preto é uma das cinco referências nacionais em reabilitação da pessoa com deficiência visual.

Mantendo na cidade o Centro de Reabilitação Visual, a instituição atende cegos e pessoas com visão subnormal de mais de 100 municípios do noroeste paulista e de estados vizinhos.

Entre os assistidos está o aposentado Claudenir de Assis, 50 anos, da cidade de Monte Azul Paulista. Ele perdeu a sua visão aos 42 anos, por conta de uma doença degenerativa que provocou o deslocamento da retina e atingiu o nervo ótico. “Primeiro, perdi a visão do meu olho esquerdo, pelo qual não enxergo nada. Depois, perdi a visão do direito, ficando com apenas 3%. Consigo perceber a luz e vultos” explica.

Para Assis, o Instituto dos Cegos foi fundamental para encarar uma nova realidade de vida. “Tive aulas de mobilidade para aprender a usar a bengala”, conta ele, que frequenta a instituição todas as semanas.

Sobre o Movimento Bengala Verde, o aposentado de Monte Azul considera a iniciativa mais que importante. “Há muitas pessoas com visão subnormal que vivem isoladas dentro de casa, pois tem medo de assumir sua condição perante os outros. Acredito que essa campanha será um incentivo para essas pessoas”, opina.

Por meio do Centro de Reabilitação Visual, o Instituto dos Cegos oferece atividades como aulas de Braile (sistema de escrita tátil utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão) e mobilidade, prática de esportes, informática, música, entre outras.

Fonte: Diário da Região São José do Rio Preto (link para o site).

 

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