Mundo Inclusão

Como você olha a pessoa com deficiência

Com o crescimento e o envelhecimento populacional, o aumento da violência, principalmente nos grandes centros urbanos, as pessoas estão mais suscetíveis a situações de risco que podem alterar o estado de saúde e a condição física. Apesar do desenvolvimento da medicina e dos processos de urgência e emergência noshospitais e nos atendimentos moveis como a SAMU, o número de  pessoas com deficiência tem crescido bastante nas últimas décadas, principalmente as deficiências físicas adquiridas advindas de acidentes automobilísticos, por mergulho em aguas rasas, doenças e por armas de fogo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (2017), no mundo, 1 bilhão de pessoas possuem algum tipo de deficiência, seja ela física, intelectual, auditiva ou visual. No Brasil, de acordo com o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2010), quarenta e cinco milhões seiscentos e seis mil e quarenta oito pessoas se declaram deficientes, caracterizando 23,9% da população brasileira. Certamente, esse número ainda é maior, já que muitos ainda por vergonha ou com medo de discriminação escondem sua deficiência. Apesar dos dados levantados  pelo IBGE, pouco se sabe sobre esses indivíduos e a falta de estatísticas sobre as pessoas com deficiência contribui para a invisibilidade das mesmas. Essa situação cria um grande obstáculo no planejamento e na implementação de políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento e a melhoria de suas vidas.

Certamente, na próxima década, teremos em nossas famílias, pelo menos, uma pessoa com deficiência, que seja causada pela velhice ou em detrimento de outra situação. Mas, como é que olhamos a pessoa com deficiência?

Apesar de toda discussão sobre a inclusão, é necessário ultrapassar a concepção da pessoa com deficiência a partir de um modelo médico, onde olhamos o indivíduo com dó, pena, receio, incapaz e inválido. A inclusão da pessoa com deficiência na sociedade em grande parte, é ampliada quando vencemos primeiro os nossos preconceitos e nossa ignorância em relação ao outro. As barreiras que as pessoas com deficiência encontram dentro de casa, do seu local de trabalho e dos ambientes que frequentam vão além das arquitetônicas, as maiores delas são as barreiras atitudinais. São elas que dificultam e impedem essas pessoas de estarem desempenhando no dia a dia a sua cidadania. Dessa forma, a relação do outro com o deficiente é extremamente importante para a efetivação da inclusão.

O olhar que temos em relação a pessoa com deficiência vai sendo construído com o passar dos anos. Enquanto criança olhamos o outro como igual. Contudo, por padrões sociais vão criando falsos conceitos em relação ao outro. A relação de imagem, de corpo, de produtividade amplia o abismo da inclusão e da convivência. O que foge ao padrão de “normalidade” causa distanciamento e inconscientemente somos agentes ativos da construção desse poço abismal.

É inegável que passamos por um período que tem um novo olhar para a pessoa com deficiência, situação que favorece o desenvolvimento biopsicossocial da pessoa com deficiência. A motivação de se sentir vivo e útil faz com que o indivíduo com deficiência busque superar seus próprios limites e a melhorar da autoestima. O que gera inúmeras modificações físicas e psicológicas, ainda mais quando o indivíduo possui limitações motoras severas.

Muitas barreiras ainda precisam ser vencidas. Um fator importante a ser lembrado é que essas barreiras não são fixas, as mudanças sociais, novas configurações refletem em novas barreiras que surgem e se enraízam no ambiente social. Assim como outros fatores interferem na validação dos direitos assegurados as pessoas que possuem algum tipo de deficiência, as barreiras atitudinais podem se perpetuar no ambiente social através das atitudes de vizinhos, amigos, e outras pessoas que estão presentes no dia a dia do indivíduo, fatores que dificultam ou podem até mesmo impossibilitar o processo de socialização, muitas dessas atitudes nem sempre são percebidas, as vezes são invisíveis e outras vezes taxadas apenas como  brincadeiras.

Durante muito tempo e até mesmo nos dias atuais, as pessoas com deficiências são vistas como incapazes, e por muitas vezes são excluídas em seus principais meios de desenvolvimento, como a própria escola ou o seu ambiente familiar, por não serem vistos com olhar de possibilidades.

Certamente, eu e você, temos um papel fundamental nesse processo. Se faz necessário um redirecionamento do olhar. Precisamos olhar o outro com os olhos de uma criança. É humano, olhar o outro como sujeito e não como objeto. É indispensável perceber as potencialidades de um corpo, diferente do meu, mas tão importante quanto. O corpo ele pode tudo! Precisamos apenas dar oportunidades.

Mas isso só será possível pela transformação de preconceitos, paradigmas e estereótipos. É necessário antes de tudo um investimento na educação formal, é dentro da escola que se inicia as grandes transformações. É pela via da sensibilidade que devemos olhar o outro, observar sua história, sua relação com a sociedade e o quanto ele pode intervir no crescimento das pessoas que o rodeiam.

Eu tenho aprendido bastante com as pessoas com deficiência que fazem parte do meu círculo de amigos e eles são muitos! Eu olho para eles e já não vejo nem as cadeiras de rodas e as muletas (quando usam) e nem enxergo a deficiência. Eu vejo uma pessoa com algumas dificuldades que precisam ser vencidas no dia a dia, assim como tenho as minhas dificuldades.

E você, como olha a pessoa com deficiência?

Fonte: Tribuna do Norte (link para o site). 

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